"Até que tantos livres o amedrontando, renegou dar a viver no claro e aberto, onde vãos de abrir, ele foi amurando opacos de fechar, onde vidro, concreto."
João Cabral
A palavra, de rio, tornou-se poço. Estanque, domada, em situação dicionária. Para em seguida perder toda sua dimensão aquosa, molhdada e molhante, seu devir-linguagem. E engessada, necrológica, figurar em contratos, jornais escrituras, testamentos, certidões A palavra petrificou-se à sua própria revelia. Tornou-se ouro em tempos de capital. Ouro que é, em sua estática dimensão. Ouro de tolo. Ouro de tolos. Ouro de todos.
"Recomeçar, trabalhar, mil vezes tentar ser um homem. Trabalhar com Arthuro, esquecer Ana, apagar Luciana. Não lembrar-se senão do trabalho, das cinquentas obrigações diárias, lembrar-se somente das multi chateações diárias do trabalho, lembrar-se de uma engrenagem e mais outra, e mais outra, e mais outra, duma engrenagem e depois um eixo que devem ser entregues dentro do prazo estabelecido. Mil vezes recomeçar, recomeçar de novo, recomeçar sempre. Esquecer Ana, apagar Luciana, lembrar-se das cinquentas obrigações diárias do trabalho. Recomeçar, recomeçar. Aceitar, aceitar. Quero ir embora, Luciana. Não quero mais ver você, nem meu filho, nem Arthuro, nem ninguém, quero sumir, acho que foi tudo um erro desde o início, bobagem minha, se você me perguntar por que, nem eu mesmo sei, nem eu, nem eu, nem eu! Sei que devo deixar tudo e recomeçar outra vez, recomeçar bem ou acabar de uma vez por todas."
Suponho que nesse momento você deve, sem força pra articular palavras ou fazer qualquer movimento, estar se perguntando o que há de errado: o suor frio, a dor corrosiva no estômago, a imobilidade - você com certeza já percebeu que isso não é mero efeito do álcool. Se te conforta, eu explico: isso são efeitos do veneno que eu pus na sua bebida. Isso mesmo, veneno. Tá vendo esse cigarro na minha mão? Você tem um cigarro de vida, quando ele acabar (nesse momento ela acende o cigarro e dá uma tragada bem devagar, soltando a fumaça com a mesma cadência), você também acaba. Então, se estiver interessado em saber o motivo da sua morte, abre bem os olhos e aguça os ouvidos, bonitão. A verdade é que eu nunca tive sorte com os homens, meu pai mesmo eu nem cheguei a conhecer. Quando eu nasci ele já era um fantasma nas vidas minha e da minha mãe. Depois de um tempo minha mãe se casou, e me limitarei a dizer que meu padrasto não era nenhum doce com nós duas, principalmente comigo. Mas o tempo passou e cada vez que eu acreditava haver superado esse trauma, uma nova decepção me remetia às horríveis experiências da infância. Eu tentei, bem que tentei, mas ao completar 16 anos eu já havia desistido. Desde o meu nascimento eu só havia conhecido homens cuja masculinidade me era extremamente abjeta. A partir daí foi um pulo até eu tomar verdadeira ojeriza pela humanidade, principalmente pelos homens e pelo ato sexual. Os homens sempre pareceram pra mim seres passíveis única e exclusivamente de pena, e eu já havia aprendido a não mais ter misericórdia. A verdade é que eu nunca fui religiosa como a minha mãe e minha tia: a vida me ensinou foi a revidar e não a oferecer a outra face, papinho besta esse. O último com quem eu me encontrei teve força o bastante pra articular uma frase antes de morrer: "sua puta niilista". Achei interessante, quase cômico, ele me chamar de niilista. Mas foram as circunstâncias, que fique bem claro, que me levaram a tal ponto em que eu tive que escolher entre matar ou morrer, e se o veneno ainda não aboliu a totalidade da sua sanidade, você certamente já intuiu a minha escolha. Ela então apaga o cigarro.
Sorris, e o fazes menos com a boca que com os olhos.
Se lembras fogos de artifício pela beleza e opulência do estouro, é do fósforo que tens a constância.
Avessa àquela explosão fugaz - da terra para o ar- é a natureza do teu movimento.
Buscas tua fagulha no ar, incendeia-te nos olhos e o sangue distribui teu calor.
Sorris, primeiro, com as pupilas depois os dentes, os braços, os seios, o quadril, as coxas, e por fim os pés.
Sorris como fósforo que se queima, mas sem o ônus da cinza. Perpetuas tua alegria comunicando-a à terra.
Daí teu gosto pelo natural, pela grama roçando-lhe a sola, pela lama percorrendo-lhe os dedos.
É impressionante como Moscou é daqueles filmes que crescem com o tempo - e olha que eu o assisti há apenas pouco mais de uma mísera semana -, parece que a cada dia o filme se engendra melhor na mente deste humilde blogueiro. Em parte pela mera divagação em torno do mais novo filme do Coutinho, outra pela revisão de outras obras do homem, outra ainda em virtude da leitura de matérias como a entrevista do velho publicada no site do IG.
A vista de Moscou foi tortuosa. Explica-se: a princípio eu pegaria a sessão das 14h da quinta-feira no Unibanco Arteplex. Mas por um desses caprichos do destino, quando a pilha do mp3 acaba e falta o brick no Thick as a, desperto de um leve sono e me dou conta que ao invés de Botafogo, aterrizo é na Gávea - e lá vai minha programação do dia roleta abaixo. Quando cheguei ao cinema já o relógio batia 14:16h. A outra e última sessão de Moscou era apenas às 22h do mesmo dia, e não, eu não confio nas distribuidoras brasileiras. Percorro os olhos pela programação do Unibanco e eis que vejo que o novo do Zhang-ke (Inútil) começa às 15:20h - 8 muito bem pagos reais nele. Às 18h peguei meu ingresso para a sessão soneca do dia - Ôrí. Aí sim eu estava revigorado e a ponto de bala pro esperado filme do Coutinho - e que puta filme, pena ter que esperar até julho pra rever.
Se em Jogo de cena, Coutinho abordava habilmente as fronteiras entre realidade e ficção nos depoimentos de suas entrevistadas, em Moscou o homem vai aos atores para buscar essa fagulha da verdade pessoal que o ser humano traz intrínseca mesmo na confecção (chamemos assim, como se fosse um processo de natureza artenasanal - que é como o filme efetivamente aborda tal feito) de uma personagem. E de fato impressiona a racionalidade, a genialidade e a progressão quase matemática do dispositivo (que é como ele gosta de chamar) que norteia o cinema do já septuagenário Eduardo Coutinho.
A dúvida que me assola a mente, e acredito que de qualquer apreciador do cinema do homem, é sobre o próximo (?) filme do Coutinho. O que será de seu cinema agora que o velho dissecou de vez seu dispositivo?
*iG - Qual vai ser o próximo filme?
Coutinho - Estou com 75 anos, indo para 76, o que já é uma utopia extraordinária. Não tenho noção se faço outro filme. Fiz sete filmes em dez anos. O que acho uma coisa espantosa. Agora, se eu não continuar a fazer filmes, não tenho mais o que fazer na vida.
Nas palavras de Reichenbach: FALSA LOURA não é exatamente aquilo que a gente costuma chamar de "música para festival". É um filme em tom baixo. Eu o defino como um adágio, no sentido latino ou itálico e musical do termo: "uma sentença breve que encerra uma moralidade"; "um dos andamentos lentos da música". Este "racconto" que encerra uma moralidade, não será nunca moralizante. Trata-se de decifrar alguns códigos das paixões efêmeras e prosaicas. A mensagem é óbvia: sem estrada não há destino. Só é possível atravessar o pântano sujando as patas e saindo ileso. Aliás, a periferia neste filme é uma metáfora do pântano. FALSA LOURA é também "quase" um musical e seus quinze minutos finais estão entre o que eu filmei de melhor na vida. Como a platéia vai reagir a este adágio é uma incógnita.
Eis que hoje, procurando um devedê com filmes noir num emaranhado de cds sem nada escrito a não ser nipponic ou multilaser, ponho um desses objetos sem aparente identidade no aparelho devedê e me deparo com o menu inicial de FALSA LOURA (assim mesmo, em merecidas letras maiúsculas). E por mais que eu o tenha visto há míseras três semanas, não resisti àquele belo rosto da Rosane Mulholland me encarando de frente. Play nela.
Antes de me dedicar única e exclusivamente à minha nova paixonite, gostaria de salientar o carinho com que o Reichenbach leva seu filme: os fluidos movimentos de câmera assemelham-se a cuidadosas carícias (desconfio até mesmo que o vento que acompanha a personagem no espetacular plano final nada mais é que um sopro apaixonado do Reichenbach por sua atriz e personagem). Ah, e não há como esquecer da música do filme, - da responsabilidade do maestro Nelson Ayres - um verdadeiro achado.
Não nos percamos no caminho, voltemos àquele que é, sem dúvida, um dos mais interessantes realizadores da chamada retomada do cinema brasileiro (e seu FALSA LOURA um dos melhores filmes brasileiros do recém falecido ano de 2008): seus filmes têm um interessantíssimo quê de artesanato, de manufatura - como bem frisado na crítica do filme no blog Filmes do Chico - e nessa característica enxergo um ponto em comum com o cinema do mais genial dos brasileiros, Rogério Sganzerla. Assim como nos filmes deste, Reichenbach incorpora com propriedade elementos da brasilidade em sua linguagem cinematográfica.
Mas deixemos o velhinho pra lá que a jovem loura já grita em cada célula desse meu agora atrofiado cérebro. Alguém me responda o que é a Rosane Mulholland, por favor. Há alguns minutos deu-se uma verdadeira revolução dentro do meu corpo, meu coração está rodando ao invés de bater, o sangue venoso e o arterial já não mais se distinguem, a comida foi para o pulmão e a fumaça do cigarro saiu pela orelha tamanho o grau de desconcerto que essa criatura causou nesse que vos escreve.
Ao menos tentarei pôr os pingos nos is. Pode parecer um exagero e de fato o é, mas a Rosane na tela me lembrou dos velhos e bons tempos de Gena Rowlands e Helena Ignez. Minha oração de logo mais com certeza se concentrará no fato de nem todos os atores - leia-se atrizes - compactuarem com o Pedro Cardoso. E adaptando aquela velha máxima do sexo masculino, "Ah lá no cinema, hein".
“O Futebol é a coisa mais importante das coisas desimportantes”
Abro essa postagem, com uma das inúmeras belas e famosas frases do saudoso Nelson Rodrigues, porque leio num desses sites da rede que o futebol é, na verdade, um mero meio de manipulação das massas - os mais sagazes já notaram sua eminente semelhança com o pizzaiolo -, uma fábrica de produção em larga escala da tão comentada alienação nacional, um combustível assaz eficiente na luta árdua contra a formação de indivíduos com consciência de classe, um parente pra lá de próximo da famigerada novela. Com todo respeito: me poupe!
Recorro a uma iluminada passagem do clássico russo - "Os irmãos Karamázov", em que um dos personagens coadjuvantes da bela trama do barbudão, em palestra com o stárets Zózima, diz encarecidamente que sente um amor enorme pelo ser humano, entretanto não o suporta quando esse próximo lhe é literalmente próximo, ele só ama ao povo enquanto um todo disforme e imaterializado - a já citada e recorrente "massa". Me parece uma síndrome - calma, leitor, eu chego lá.
É fato que boa parte dos que se dizem mais engajadinhos têm uma verdadeira ojeriza a futebol, ou qualquer coisa que atraia as "massas". Explica-se: eles supõem-se a vanguarda iluminada que reúne a quantidade exata de sabedoria e disposição para libertar a anônima "massa" da triste situação a que a mesma se encontra relegada. A diversão está expressamente proibida a essa faixa da população tupiniquim, na qual deve reinar absolutamente durante 100% de seu tempo, como um verdadeiro déspota, o seu viés político e a sua consciência de classe.
Tá certo. Desde já, então, decreta-se estar terminantemente proibido ao indivíduo (principalmente àqueles de renda incontestavelmente baixa, lembrando-se que a ocorrência se acentua no caso daqueles que sequer a possuem) o desfrute da diversão, seja ela de qualquer natureza. Jogos de futebol ou qualquer outro esporte ou atividade que receba interesse exacerbado e despropositado por parte da população em geral, impedindo-os de ficar remoendo sua lastimável situação (financeira, emocional ou seja lá o que for) deve ser sumariamente eliminado(a) do dia-a-dia do cidadão comum. Declara-se, a partir deste momento, às 01:03 do dia 26 de janeiro de 2009 decretada a morte do entretenimento que se encerra como tal.
E que monólogo tedioso a vida seria, hein.
Há ainda uma defesa apaixonada do poeta Paulo Leminski da poesia como inutensílio, comparando-a, em determinado momento ao futebol, aqui:
Em tempo, o carioca já começou: ainda ontem o Vasco mostrou a que veio - os 2x0 pro Americano em pleno São januário desmonstra a disposição dos cruz-maltinos para brigar pela segundona do campeonato carioca, dessa vez. Já o Botafogo sofreu mas levou pra casa os três pontinhos conseguidos na vitória apertada em cima do pequeno Boavista. O Flamengo, com a onipresente ajuda divina - há quem chame de erro de arbritragem, os mais maldosos: roubo, eu, particularmente, acredito na boa vontade do todo poderoso - suou a camisa pra vencer pelo mísero placar de 1x0 o retrancado Friburguense. Falando em ...ense, o Fluminense decepcionou bonito ao perder de virada pelo placar de 3x1 pro modesto Cabofriense, que jogou em seu simpático estádio, o qual comporta um público de, pasmem, 5 mil pessoas. Agora é esperar pra ver se sai mais um tri do mengão, afinal o que resta ao flamenguista é torcer pelo carioca, já que nos campeonatos de maior porte o rubro-negro carioca tem feito pra lá de feio. Mesmo assim, as saudações ao leitor serão eternamente rubro-negras!
Eis que mais um ano escoa por entre os dedos, mas não sem deixar suas cicatrizes. 2008 foi um ano pra lá de significativo. Explica-se: primeiramente, foi ano de início de uma nova trajetória acadêmica, o ensino superior - no embate entre jornalismo e cinema, levou a melhor a sétima arte. E no quesito cinema 2008 não deixou a desejar: além do início do ansiosamente aguardado primeiro período da faculdade, se deu a descoberta de uma segunda casa, o Centro Cultural Bando do Brasil - CCBB pros mais íntimos - onde ocorreu a inesquecível retrospectiva do cinema do francês Alain Resnais (o que dizer da emoção de apreciar Hiroshima, Marienbad e Providence na telona, entre outros grandes títulos desse mestre?); a rara oportunidade de assistir na sala escura à boa parte da obra cinematográfica de Murnau; a apresentação a nomes tão fundamentais quanto pouco conhecidos do cinema oriental; ou o debute no Festival do Rio.
Além disso, a descoberta das sedutoras mulheres de Milo Manara; o surgimento de uma paixão - a femme fatale de Crepax, Valentina (essa belezura da foto acima); o indescritível deleite com o teatro de Nelson Rodrigues; os shows beirando o sublime de Bob Dylan e João Gilberto; entre outros momentos memoráveis marcaram esse ano que há pouco bateu as botas.
Em tempo, logo abaixo vai uma lista dos que eu considero os 10 melhores filmes lançados nos cinemas brasileiros no ano de 2008. Há ainda alguns filmes que poderiam estar ocupando um dos acentos abaixo caso eu houvesse tido a possibilidade de assistí-los, o que tentarei fazer o mais rápido possível - que eu me recorde nesse momento são eles: Conto de natal, Falsa Loura, Canções de amor, A questão humana e Wall-e; sem mais delongas, lá vai:
1 - Não estou lá (I'm not there, Todd Haynes)
2 - Paranoid Park (idem, Gus Van Sant)
3 - Antes que o diabo saiba que você está morto (Before the devil knows you're dead, Sydney Lumet)
4 - Onde os fracos não têm vez (No country for old men, Joel e Ethan Coen)
5 - Sangue negro (There will be blood, Paul Thomas Anderson)
6 - Senhores do crime (Eastern promises, David Cronenberg)
7 - Serras da desordem (idem, Andrea Tonacci)
8 - A fronteira da alvorada (La frontière de l’aube, Philippe Garrel)
9 - Encarcação do demônio (idem, José Mojica Marins)
10 - 4 meses, 3 semanas e 2 dias (4 Luni, 3 Saptamini Si 2 Zile, Cristian Mungiu)
Bateram na trave:
A espiã - Paul Verhoeven
Leonera - Pablo Trapero
O nevoeiro - Frank Darabont
That's all, folks.
Cartão de Natal
Pois que reinaugurando essa criança pensam os homens reinaugurar a sua vida e começar novo caderno, fresco como o pão do dia; pois que nestes dias a aventura parece em ponto de vôo, e parece que vão enfim poder explodir suas sementes:
que desta vez não perca esse caderno sua atração núbil para o dente; que o entusiasmo conserve vivas suas molas, e possa enfim o ferro comer a ferrugem o sim comer o não.