Viúva negra
Suponho que nesse momento você deve, sem força pra articular palavras ou fazer qualquer movimento, estar se perguntando o que há de errado: o suor frio, a dor corrosiva no estômago, a imobilidade - você com certeza já percebeu que isso não é mero efeito do álcool. Se te conforta, eu explico: isso são efeitos do veneno que eu pus na sua bebida. Isso mesmo, veneno. Tá vendo esse cigarro na minha mão? Você tem um cigarro de vida, quando ele acabar (nesse momento ela acende o cigarro e dá uma tragada bem devagar, soltando a fumaça com a mesma cadência), você também acaba. Então, se estiver interessado em saber o motivo da sua morte, abre bem os olhos e aguça os ouvidos, bonitão.
A verdade é que eu nunca tive sorte com os homens, meu pai mesmo eu nem cheguei a conhecer. Quando eu nasci ele já era um fantasma nas vidas minha e da minha mãe. Depois de um tempo minha mãe se casou, e me limitarei a dizer que meu padrasto não era nenhum doce com nós duas, principalmente comigo. Mas o tempo passou e cada vez que eu acreditava haver superado esse trauma, uma nova decepção me remetia às horríveis experiências da infância.
Eu tentei, bem que tentei, mas ao completar 16 anos eu já havia desistido. Desde o meu nascimento eu só havia conhecido homens cuja masculinidade me era extremamente abjeta.
A partir daí foi um pulo até eu tomar verdadeira ojeriza pela humanidade, principalmente pelos homens e pelo ato sexual. Os homens sempre pareceram pra mim seres passíveis única e exclusivamente de pena, e eu já havia aprendido a não mais ter misericórdia. A verdade é que eu nunca fui religiosa como a minha mãe e minha tia: a vida me ensinou foi a revidar e não a oferecer a outra face, papinho besta esse.
O último com quem eu me encontrei teve força o bastante pra articular uma frase antes de morrer: "sua puta niilista". Achei interessante, quase cômico, ele me chamar de niilista.
Mas foram as circunstâncias, que fique bem claro, que me levaram a tal ponto em que eu tive que escolher entre matar ou morrer, e se o veneno ainda não aboliu a totalidade da sua sanidade, você certamente já intuiu a minha escolha.
Ela então apaga o cigarro.
De quando sorris
Sorris, e o fazes
menos com a boca
que com os olhos.
Se lembras fogos de artifício
pela beleza e opulência do estouro,
é do fósforo que tens a constância.
Avessa àquela explosão fugaz
- da terra para o ar-
é a natureza do teu movimento.
Buscas tua fagulha no ar,
incendeia-te nos olhos
e o sangue distribui teu calor.
Sorris, primeiro, com as pupilas
depois os dentes, os braços, os seios,
o quadril, as coxas, e por fim os pés.
Sorris como fósforo que se queima,
mas sem o ônus da cinza.
Perpetuas tua alegria comunicando-a à terra.
Daí teu gosto pelo natural,
pela grama roçando-lhe a sola,
pela lama percorrendo-lhe os dedos.
Sorris, e o fazes
menos com a boca
que com os olhos.
Se lembras fogos de artifício
pela beleza e opulência do estouro,
é do fósforo que tens a constância.
Avessa àquela explosão fugaz
- da terra para o ar-
é a natureza do teu movimento.
Buscas tua fagulha no ar,
incendeia-te nos olhos
e o sangue distribui teu calor.
Sorris, primeiro, com as pupilas
depois os dentes, os braços, os seios,
o quadril, as coxas, e por fim os pés.
Sorris como fósforo que se queima,
mas sem o ônus da cinza.
Perpetuas tua alegria comunicando-a à terra.
Daí teu gosto pelo natural,
pela grama roçando-lhe a sola,
pela lama percorrendo-lhe os dedos.

É impressionante como Moscou é daqueles filmes que crescem com o tempo - e olha que eu o assisti há apenas pouco mais de uma mísera semana -, parece que a cada dia o filme se engendra melhor na mente deste humilde blogueiro. Em parte pela mera divagação em torno do mais novo filme do Coutinho, outra pela revisão de outras obras do homem, outra ainda em virtude da leitura de matérias como a entrevista do velho publicada no site do IG.
A vista de Moscou foi tortuosa. Explica-se: a princípio eu pegaria a sessão das 14h da quinta-feira no Unibanco Arteplex. Mas por um desses caprichos do destino, quando a pilha do mp3 acaba e falta o brick no Thick as a, desperto de um leve sono e me dou conta que ao invés de Botafogo, aterrizo é na Gávea - e lá vai minha programação do dia roleta abaixo. Quando cheguei ao cinema já o relógio batia 14:16h. A outra e última sessão de Moscou era apenas às 22h do mesmo dia, e não, eu não confio nas distribuidoras brasileiras. Percorro os olhos pela programação do Unibanco e eis que vejo que o novo do Zhang-ke (Inútil) começa às 15:20h - 8 muito bem pagos reais nele. Às 18h peguei meu ingresso para a sessão soneca do dia - Ôrí. Aí sim eu estava revigorado e a ponto de bala pro esperado filme do Coutinho - e que puta filme, pena ter que esperar até julho pra rever.
Se em Jogo de cena, Coutinho abordava habilmente as fronteiras entre realidade e ficção nos depoimentos de suas entrevistadas, em Moscou o homem vai aos atores para buscar essa fagulha da verdade pessoal que o ser humano traz intrínseca mesmo na confecção (chamemos assim, como se fosse um processo de natureza artenasanal - que é como o filme efetivamente aborda tal feito) de uma personagem. E de fato impressiona a racionalidade, a genialidade e a progressão quase matemática do dispositivo (que é como ele gosta de chamar) que norteia o cinema do já septuagenário Eduardo Coutinho.
A dúvida que me assola a mente, e acredito que de qualquer apreciador do cinema do homem, é sobre o próximo (?) filme do Coutinho. O que será de seu cinema agora que o velho dissecou de vez seu dispositivo?
*iG - Qual vai ser o próximo filme?
Coutinho - Estou com 75 anos, indo para 76, o que já é uma utopia extraordinária. Não tenho noção se faço outro filme. Fiz sete filmes em dez anos. O que acho uma coisa espantosa. Agora, se eu não continuar a fazer filmes, não tenho mais o que fazer na vida.
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