De quando sorris
Sorris, e o fazes
menos com a boca
que com os olhos.
Se lembras fogos de artifício
pela beleza e opulência do estouro,
é do fósforo que tens a constância.
Avessa àquela explosão fugaz
- da terra para o ar-
é a natureza do teu movimento.
Buscas tua fagulha no ar,
incendeia-te nos olhos
e o sangue distribui teu calor.
Sorris, primeiro, com as pupilas
depois os dentes, os braços, os seios,
o quadril, as coxas, e por fim os pés.
Sorris como fósforo que se queima,
mas sem o ônus da cinza.
Perpetuas tua alegria comunicando-a à terra.
Daí teu gosto pelo natural,
pela grama roçando-lhe a sola,
pela lama percorrendo-lhe os dedos.

É impressionante como Moscou é daqueles filmes que crescem com o tempo - e olha que eu o assisti há apenas pouco mais de uma mísera semana -, parece que a cada dia o filme se engendra melhor na mente deste humilde blogueiro. Em parte pela mera divagação em torno do mais novo filme do Coutinho, outra pela revisão de outras obras do homem, outra ainda em virtude da leitura de matérias como a entrevista do velho publicada no site do IG.
A vista de Moscou foi tortuosa. Explica-se: a princípio eu pegaria a sessão das 14h da quinta-feira no Unibanco Arteplex. Mas por um desses caprichos do destino, quando a pilha do mp3 acaba e falta o brick no Thick as a, desperto de um leve sono e me dou conta que ao invés de Botafogo, aterrizo é na Gávea - e lá vai minha programação do dia roleta abaixo. Quando cheguei ao cinema já o relógio batia 14:16h. A outra e última sessão de Moscou era apenas às 22h do mesmo dia, e não, eu não confio nas distribuidoras brasileiras. Percorro os olhos pela programação do Unibanco e eis que vejo que o novo do Zhang-ke (Inútil) começa às 15:20h - 8 muito bem pagos reais nele. Às 18h peguei meu ingresso para a sessão soneca do dia - Ôrí. Aí sim eu estava revigorado e a ponto de bala pro esperado filme do Coutinho - e que puta filme, pena ter que esperar até julho pra rever.
Se em Jogo de cena, Coutinho abordava habilmente as fronteiras entre realidade e ficção nos depoimentos de suas entrevistadas, em Moscou o homem vai aos atores para buscar essa fagulha da verdade pessoal que o ser humano traz intrínseca mesmo na confecção (chamemos assim, como se fosse um processo de natureza artenasanal - que é como o filme efetivamente aborda tal feito) de uma personagem. E de fato impressiona a racionalidade, a genialidade e a progressão quase matemática do dispositivo (que é como ele gosta de chamar) que norteia o cinema do já septuagenário Eduardo Coutinho.
A dúvida que me assola a mente, e acredito que de qualquer apreciador do cinema do homem, é sobre o próximo (?) filme do Coutinho. O que será de seu cinema agora que o velho dissecou de vez seu dispositivo?
*iG - Qual vai ser o próximo filme?
Coutinho - Estou com 75 anos, indo para 76, o que já é uma utopia extraordinária. Não tenho noção se faço outro filme. Fiz sete filmes em dez anos. O que acho uma coisa espantosa. Agora, se eu não continuar a fazer filmes, não tenho mais o que fazer na vida.

Nas palavras de Reichenbach: FALSA LOURA não é exatamente aquilo que a gente costuma chamar de "música para festival". É um filme em tom baixo. Eu o defino como um adágio, no sentido latino ou itálico e musical do termo: "uma sentença breve que encerra uma moralidade"; "um dos andamentos lentos da música". Este "racconto" que encerra uma moralidade, não será nunca moralizante. Trata-se de decifrar alguns códigos das paixões efêmeras e prosaicas. A mensagem é óbvia: sem estrada não há destino. Só é possível atravessar o pântano sujando as patas e saindo ileso. Aliás, a periferia neste filme é uma metáfora do pântano. FALSA LOURA é também "quase" um musical e seus quinze minutos finais estão entre o que eu filmei de melhor na vida. Como a platéia vai reagir a este adágio é uma incógnita.
Eis que hoje, procurando um devedê com filmes noir num emaranhado de cds sem nada escrito a não ser nipponic ou multilaser, ponho um desses objetos sem aparente identidade no aparelho devedê e me deparo com o menu inicial de FALSA LOURA (assim mesmo, em merecidas letras maiúsculas). E por mais que eu o tenha visto há míseras três semanas, não resisti àquele belo rosto da Rosane Mulholland me encarando de frente. Play nela.
Antes de me dedicar única e exclusivamente à minha nova paixonite, gostaria de salientar o carinho com que o Reichenbach leva seu filme: os fluidos movimentos de câmera assemelham-se a cuidadosas carícias (desconfio até mesmo que o vento que acompanha a personagem no espetacular plano final nada mais é que um sopro apaixonado do Reichenbach por sua atriz e personagem). Ah, e não há como esquecer da música do filme, - da responsabilidade do maestro Nelson Ayres - um verdadeiro achado.
Não nos percamos no caminho, voltemos àquele que é, sem dúvida, um dos mais interessantes realizadores da chamada retomada do cinema brasileiro (e seu FALSA LOURA um dos melhores filmes brasileiros do recém falecido ano de 2008): seus filmes têm um interessantíssimo quê de artesanato, de manufatura - como bem frisado na crítica do filme no blog Filmes do Chico - e nessa característica enxergo um ponto em comum com o cinema do mais genial dos brasileiros, Rogério Sganzerla. Assim como nos filmes deste, Reichenbach incorpora com propriedade elementos da brasilidade em sua linguagem cinematográfica.
Mas deixemos o velhinho pra lá que a jovem loura já grita em cada célula desse meu agora atrofiado cérebro. Alguém me responda o que é a Rosane Mulholland, por favor. Há alguns minutos deu-se uma verdadeira revolução dentro do meu corpo, meu coração está rodando ao invés de bater, o sangue venoso e o arterial já não mais se distinguem, a comida foi para o pulmão e a fumaça do cigarro saiu pela orelha tamanho o grau de desconcerto que essa criatura causou nesse que vos escreve.
Ao menos tentarei pôr os pingos nos is. Pode parecer um exagero e de fato o é, mas a Rosane na tela me lembrou dos velhos e bons tempos de Gena Rowlands e Helena Ignez. Minha oração de logo mais com certeza se concentrará no fato de nem todos os atores - leia-se atrizes - compactuarem com o Pedro Cardoso. E adaptando aquela velha máxima do sexo masculino, "Ah lá no cinema, hein".
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