Pequena ode metalingüística

Toda página é um depósito
(de palavras-tonelada
ou estrofes-miligrama)
volume incalculável

Nem todo verbo, chama
Mas todo sangue, inflamável

"Fiquei meio desiludido com Orson Welles quando ele disse que não era um gênio. O sujeito que não se considera um gênio não deve se dedicar a fazer arte ou literatura. Então que faça filhos e, se já tem oito, que continue fazendo. Não consigo admirar "Cidadão Kane" - é um Pirandello muito suburbano(...).No Orson Welles, eu gostei de "O Processo". Nunca vi uma platéia tão respeitosa porque não estava entendendo nada."

Nelson Rodrigues

A primeira cena de O Processo:
http://br.youtube.com/watch?v=HOnXCLcx6TM


POEMA NEGRO

A Santos Neto

Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota)
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!

A passagem dos séculos me assombra.
Para onde irá correndo minha sombra
Nesse cavalo de eletricidade?!
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem:
- Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem?
E parece-me um sonho a realidade.

Em vão com o grito do meu peito impreco!
Dos brados meus ouvindo apenas o eco,
Eu torço os braços numa angústia douda
E muita vez, á meia-noite, rio
Sinistramente, vendo o verme frio
Que há de comer a minha carne toda!

É a Morte - esta carnívora assanhada -
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
- Faminta e atra mulher que, a 1 de Janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!

Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino...
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!

Surpreendo-me, sozinho, numa cova.
Então meu desvario se renova...
Como que, abrindo todos os jazigos,
A Morte, em trajes pretos e amarelos.
Levanta contra mim grandes cutelos
E as baionetas dos dragões antigos!

E quando vi que aquilo vinha vindo
Eu fui caindo como um sol caindo
De declínio em declínio; e de declínio
Em declínio, com a gula de uma fera,
Quis ver o que era, e quando vi o que era,
Vi que era pó, vi que era esterquilinio!

Chegou a tua vez, oh! Natureza!
Eu desafio agora essa grandeza,
Perante a qual meus olhos se extasiam
Eu desafio, desta cova escura,
No histerismo danado da tortura
Todos os monstros que os teus peitos criam.

Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes,
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!

Semeadora terrível de defuntos,
Contra a agressão dos teus contrastes juntos
A besta, que em mim dorme, acorda em berros
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!

Pois bem! Chegou minha hora de vingança.
Tu mataste o meu tempo de criança
E de segunda-feira até domingo,
Amarrado no horror de tua rede,
Deste-me fogo quando eu tinha sede...
Deixa-te estar, canalha, que eu me vingo!

Súbito outra visão negra me espanta!
Estou em Roma. É Sexta-feira Santa.
A treva invade o obscuro orbe terrestre
No Vaticano, em grupos prosternados,
Com as longas fardas rubras, os soldados
Guardam o corpo do Divino Mestre.

Como as estalactites da caverna,
Cai no silêncio da Cidade Eterna
A água da chuva em largos fios grossos...
De Jesus Cristo resta unicamente
Um esqueleto; e a gente, vendo-o, a gente
Sente vontade de abraçar-lhe os ossos!

Não há ninguém na estrada da Ripetta.
Dentro da Igreja de São Pedro, quieta,
As luzes funerais arquejam fracas...
O vento entoa cânticos de morte.
Roma estremece! Além, num rumor forte
Recomeça o barulho das matracas.

A desagregação da minha Idéia
Aumenta. Como as chagas da morféia
O medo, o desalento e o desconforto
Paralisam-me os círculos motores.
Na Eternidade, os ventos gemedores
Estão dizendo que Jesus é morto!

Não! Jesus não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é que embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.

Na agonia de tantos pesadelos
Uma dor bruta puxa-me os cabelos.
Desperto. E tão vazia a minha vida!
No pensamento desconexo e falho
Trago as cartas confusas de um baralho
E um pedaço de cera derretida!

Dorme a casa. O céu dorme. A árvore dorme
Eu, somente eu, com a minha dor enorme
Os olhos ensangüento na vigília!
E observo, enquanto o horror me corta a fala
O aspecto sepulcral da austera sala
E a impassibilidade da mobília.

Meu coração, como um cristal, se quebre
O termômetro negue minha febre,
Torne-se gelo o sangue que me abrasa
E eu me converta na cegonha triste
Que das ruínas duma casa assiste
Ao desmoronamento de outra casa!

Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos.

Augusto dos Anjos
"They say the devil loads a gun every six years, I'd say also that God loads a camera every three years and hands it to Stanley (Kubrick) to work the life out of it."

God loaded a camera, in the actual case.

Para elas...

(1)

O que pele e alma, paixão distante
Quilômetros afugentaram a constância dos amantes
A melancólica ausência estampou-se nos semblantes
E o relógio que outrora depois, parece agora clamar antes

Amontoado de tempo destempo
Medidas disformes de tempo
Horas e dias cujo volume varia
À medida que a saudade desvaria

O passado subordinando o presente
A lente trocando de foco
O invólucro da vida quedando-se doente
Pierrot e Colombina mudando de bloco.

(2)

a poesia é intraduzível,
e quando adquire textura:
sangue, osso, carne
que mesmo após apagados, diluídos, desmanchados
tem vasão no charme
aí então é que não se mensura.
O passarinho

Quando o Brasil levantou o Pan-Americano, eu só lamentei uma coisa: - que Bilac não estivesse vivo. Não o Bilac da "Frinéia", do "Nunca morrer assim", das "Virgens mortas", mas sim o Bilac dos tiros de guerra. Infelizmente, não mais existem, nem os tiros, nem o poeta. E é pena. Outrora, cada acontecimento tinha um Homero à mão, ou um Camõs, ou um Dante. Recheado de poesia, entupido de rimas, o fato adquiria uma dimensão nova e emocionante. Ora, faltou, justamente, à vitória gaúcha, o seu poeta. Os correspondentes brasileiros, que estavam no México, deviam mandar, de lá, telegramas rimados, ungidos de histerismo cívico. Mas como estamos em crise de Bilacs, o fabuloso triunfo só inspirou mesmo uma pífia correspondência, que nos enche de humilhação patriótica e vergonha profissional. Cada cronista da delegação, em vez de babar materialmente de gozo, mandou dizer ao seu jornal o seguinte: - "que os argentinos jogaram mais, que os argentinos mereceram vencer e que os brasileiros estavam apáticos". Vejam vocês em que dá a mania de justiça e da objetividade! Um cronista apaixonado havia de retocar o fato, transfigurá-lo, dramatizá-lo. Daria à estúpida e chata realidade um sopro de fantasia. Falaria com os arreganhos de um orador canastrão. Em vez disso, os rapazes cingiram-se a uma veracidade pura e abjeta. Ora, o jornalista que tem o culto do fato é profissionalmente um fracassado. Sim, amigos, o fato em si mesmo vale pouco ou nada. O que lhe dá autoridade é o acréscimo da imaginação. Por outras palavras: - os cronistas patrícios teriam que dizer, do México, que fomos os maiores, que teríamos papado o próprio escrete húngaro, e que houve, no mínimo, umas 35 bolas na trave. Dirá alguém que seria uma inverdade. De acordo. Mas o fato ganharia em poesia, em ímpeto lírico, em violência dramática. E, além disso, ai do repórter no dia em que fosse um reles e subserviente reprodutor do fato. A arte jornalística consiste em pentear ou desgrenhar o acontecimento, e , de qualquer forma, negar a sua imagem autêntica e alvar. Modelo de eficiência profissional foi aquele repórter que viu um incêndio. Entre parênteses: - já contei o episódio, mas vou repetí-lo, a título ilustrativo. O jornalista espia o fogo e conclui que se tratava, na verdade, de um incêndio vagabundo, uma vergonha de incêndio. Qualquer mãe de família o apagaria com um humilhante regador de jardim. Volta o repórter para a redação e, lá, escreve uma página de jornal sobre o fracassado sinistro. E mais: - põe um canário inventado no meio das labaredas, um canário que morre cantando. No dia seguinte, a edição esgotou-se. A cidade inteira, de ponta a ponta, chorou a irreparável perda do bicho. Vejam vocês a lição de vida e de jornalismo: - com duas mentiras, o repórter alcançara um admirável resultado poético e dramático. O que faltou aos nossos correspondentes do México foi, justamente, o passarinho. Fizemos uma África miserável, uma ilíada tenebrosa, papamos o Chile, o Peru, o México, a Costa Rica e quase a Argentina. E nenhum dos confrades, adidos à delegação, lembrou-se de recriar o canário, de assassiná-lo outra vez. Sem passarinho, não há jornalismo possível.

Nelson Rodrigues em "O Berro Impresso das Manchetes"

Wong Kar Wai's Blueberry Nights

O novo filme do cultuado cineasta Wong Kar Wai, My Blueberry nights (que no Brasil os tradutores se encarregaram - como quase sempre - de deturpar, chamando-o de "Um beijo roubado") foi recebido pela crítica com ressalvas e, agora, julgo-o segundo meu crivo.

A primeira incursão do chinês no cinema americano rendeu um filme de qualidade duvidosa. Vamos, então, por partes: o filme tem a presença de ninguém menos que Rachel Weisz, Natalie Portman, Jude Law e David Strathairn, além da estréia da cantora Norah Jones na telona (no papel principal) e a pontinha de Chan Marshal (Cat Power - que aparece na virtuosa trilha sonora do filme). Curiosamente, a sobra de bons atores atrapalha o desenvolvimento do roteiro, a força dos personagens de Natalie Portman, Rachel Weisz e David Strathairn desvia o foco da história principal ao invés de incrementá-la.

A falta de experiência de Norah Jones faz-se sentir, numa interpretação mediana, seguida de perto por Jude Law, que também decepciona. A atuação de Natalie Portman é, por vezes, exagerada, assim como a de Rachel Weisz. Desse time aí em cima, o único que merece sinceros aplausos, em minha opinião, é David Strathairn, que manda muito bem como um policial beberrão e de coração partido.

O roteiro assinado por WKW e Lawrence Block não tem aquela alma de atrabalhos anteriores do diretor, como Amor à flor da pele (In The Mood For Love) ou 2046, ou até mesmo Amores expressos (Chungking Express). Os diálogos são sofríveis, o que se explica pela falta de conforto do diretor chinês com a língua inglesa. E além disso, o roteiro soa um tanto quanto repetitivo, se comparado aos filmes anteriores do próprio.

Apesar das ressalvas, o filme é primoroso na estética: a fotografia, que, dessa vez, não é assinada por Christopher Doyle, e sim Darius Khondji (Delicatessen), é uma preciosidade. A direção de WKW não decepciona, os efeitos em slow motion são belos ( apesar de o cinestas, às vezes, abusar desse recurso, o que não chega a comprometê-lo), a composição de planos do china é sensacional.

Resumindo, o filme tem o ritmo, a beleza e o toque da direção WKW, mas peca no conteúdo.